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Artigo publicado na revista SOS Saúde, Outubro/2000

TOXICODEPENDÊNCIA E ALCOOLISMO, LINHAS ORIENTADORAS DE AVALIAÇÃO PARA TRATAMENTO, IMPACTO NA FAMÍLIA E PROCURA DE AJUDA

A DEPENDÊNCIA
Nos tempos actuais aceita-se como verdadeiro o facto de existirem variáveis de natureza psicológica, social e biológica que interagem no desenvolvimento da dependência do álcool e outras drogas alteradoras do estado de humor. As diferentes dimensões dizem respeito a perturbações da personalidade, eventuais características psiquiátricas próprias, síndromes de abstinência, que se revelam tanto a nível psíquico como somático, incapacidades tanto somáticas como psíquicas causadas directamente pelos produtos consumidos e distúrbios de natureza social e em especial familiar.

CRITÉRIOS DE DEPENDÊNCIA
Desde sensivelmente 1950 têm sido feitas inúmeras tentativas no sentido de se definirem critérios para se diagnosticarem eficazmente a dependência do álcool e outras substâncias. Nestes 50 anos desenvolveram-se mais de 50 tipologias de classificação diferentes. Estas variam frequentemente do modelo teórico que o respectivo pesquisador defende. No estado actual dos conhecimentos parece-nos que uma perspectiva pragmática é a que melhor corresponde à realidade do dia-a-dia clínico e terapêutico. Sistemas de classificação como o DSM-IV e o ICD-10 parecem ser suficientemente qualificadas nas suas tentativas de classificação. Resumindo os dois sistemas, o primeiro da Associação Psiquiátrica Americana e o segundo da Organização Mundial de Saúde, passamos a relembrar os itens mais importantes destas duas classificações:

1. Forte desejo ou sensação de compulsão (craving)
2. Enfraquecimento da capacidade de controlo
3. Intenção de aliviar sintomas de privação
4. Síndrome de privação
5. Existência evidente de tolerância
6. Diminuição do padrão de uso
7. Negligência progressiva de actividades de lazer e outros interesses
8. Uso persistente de álcool apesar de óbvias consequências nocivas
9. Períodos consideráveis de tempo gastos a procurar a substância, consumi-la e a recobrar após ingestão
10. Intoxicações frequentes com sinto-mas de privação, quando se espera que o indivíduo assuma responsabilidades
11. Substância consumida em quanti-dades superiores ou períodos mais lon-gos do que inicialmente pretendido pelo indivíduo.

Outro questionário, o de CAGE, em poucas palavras questiona muito:

1. Alguma vez sentiu que devia reduzir o seu consumo de vinho ou outras bebidas alcoólicas ? (todas as respostas a responder com uma simples resposta “sim” ou “não”) (para os não alcoólicos substituir a palavra álcool pela sua substância de escolha)
2. Já alguma vez se sentiu aborrecido por as pessoas criticarem os seus hábitos de bebida ?
3. Alguma vez se sentiu mal consigo próprio, ou se considerou culpado, por causa do hábito da bebida ?
4. Alguma vez tomou uma bebida (alcoólica) logo pela manhã, para acalmar os nervos ou para se ver livre duma sensação de ressaca ?

Se respondeu “sim” pelo menos duas vezes, é tempo de reagir.

A DOENÇA FAMILIAR DA DEPENDÊNCIA QUÍMICA

Como é do conhecimento geral estima-se que existem em Portugal sensívelmente 600 000 alcoólicos e à volta de 200 000 toxicodependentes (estes valores diferem de analista para analista, mas pensamos que não se devem situar muito longe da realidade e devem reunir consenso quanto à sua objectividade). Isto significa que sensivelmente haverá cerca de 2 500 000 a 3 200 000 pessoas que diariamente sofrem directa ou indirectamente as consequências da doença da Dependência Química, sendo atingidas no plano afectivo e no seu quotidiano, sentindo-se tão desamparadas como o doente que têm em casa. A dependência atinge toda a família, divide-a e isola-a do resto do mundo. Os sentimentos, os pensamentos e os comportamentos de cada membro da família rodam o consumo e a personalidade do doente dependente. O nome dado a este síndroma é a co-dependência. Quais são os principais sintomas desta ? – o encobrimento e a facilitação, que são facetas da negação que domina o dependente químico e o sistema familiar à volta dele/a. Vale tudo menos falar do problema em casa. Os pedidos de ajuda frequentemente só aparecem num estádio muito avançado da doença, no qual os danos já são muitos e as consequências imprevísiveis.

PROCURAR AJUDA FORA DO MEIO FAMILIAR

É muito difícil para o meio envolvente ajudar o dependente a controlar o seu consumo dependente. A prática demonstra que os membros da família alcoólica devem em primeiro lugar aprender a libertarem-se da pressão em que vivem e tornarem-se independentes do dependente químico. Ao aprenderem a se soltarem e dizerem não ao carregar com os problemas causados pelo alcoólico ou toxicodependente em casa, os membros da família preparam-se para ajudar de forma mais efectiva e produtiva. Assim, o processo de ajuda não começa por proibir ou impedir, mas pela tomada de consciência do poder que o químico representa sobre o seu próprio comportamento e pela necessária libertação. O passo não é fácil de dar porque a dependência química leva anos a se instalar, de forma velada e insidiosa, da mesma forma que pode haver recaídas durante a abstinência, a família não consegue mudar de repente as atitudes. Por isso precisam de um suporte e de uma ajuda, que deve ser procurada fora da família. A recuperação do dependente químico faz-se raramente com receitas precisas. Existem numerosos organismos de aconselhamento e grupos de auto-ajuda que podem aconselhar e acompanhar o alcoólico e a família. Sair da dependência significa que é preciso mudar a maneira de pensar e de agir. O suporte dos especialistas, são desde logo importantes para todos.

Manuel Sommer
Psicólogo

Director do Centro de Recuperação ERA – EMPATIA, RECUPERAÇÃO E APOIO, Lisboa, fundador e director da CAPA – CLÍNICA DE ACONSELHAMENTO E PSICOTERAPIA DAS DEPENDÊNCIAS, Cruz Quebrada, Lisboa.

Artigo:
"Toxicodependência e alcoolismo"
"Linhas orientadoras de avaliação para tratamento, impacto na familia e procura de ajuda."

Artigo:
"Aid for addicts"
"The Algarve’s first
in-patient detoxification
and rehabilitation
facility for alcoholics
and drug addicts
has opened
near Silves".