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Artigo publicado no Jornal de Oeiras em 5 de
Dezembro de 2006
“O
Tratamento da Dependência Química
e o conceito de recuperação: “poder
recuperar sem ter que ser internado, sem ter que
me afastar da minha família e sem deixar
de trabalhar”
Nos últimos 20 anos inúmeros progressos
e avanços significativos no tratamento
de problemas de dependência química
têm vindo a ser feitos, e que reflectem
a multidisciplinaridade dos problemas que se apresentam
aos profissionais de tratamento. É hoje
um dado adquirido o facto de raramente se observar
num doente dependente químico um consumo
de uma só substância, sendo o comportamento
“normal” o recurso a várias
substâncias, utilizando muitas vezes as
mesmas ou parecidas para atingir estados psíquicos
diferentes, por vezes estados psíquicos
complementares. A contínua presença
do álcool em todos os dependentes químicos
vem complicar o tratamento. Sendo uma substância
legal e barata, acaba por ser, para muitos, uma
porta complicada de fechar e uma barreira para
uma recuperação substancial.
É desta maneira importante que dentro da
nossa metodologia não se entenda que exista
alguma “cura” da dependência
química, mas antes “recuperação”
da mesma, visto estar comprovado que a predisposição
não desaparece com o tratamento, mas ficando
desta maneira “estacionária”,
necessitando de ser sujeita a um controle interno
(do próprio) e externo (em tratamento)
atento, rigoroso e contínuo ao longo de
vários anos. A dependência química
pode ser considerada crónica, progressiva
e potencialmente fatal, se não interrompido
o processo activo de ingestão de substâncias
atempadamente. É nossa experiência
a doença não parar por ela mesma,
sendo necessário um apoio específico,
profissional e com uma estrutura competente de
o fazer.
Tradicionalmente tem-se recorrido ao internamento
para se tratar de doentes dependentes químicos,
no entanto uma das técnicas que se tem
revelado mais útil e ao alcance de cada
um para se atingir um nível satisfatório
de recuperação e de se conseguir
sair de um processo auto-destrutivo e destrutivo
dos outros, tem sido a psicoterapia de grupo,
psicoterapia individual e a terapia familiar complementar
com uma frequência que pode ser até
diária e sempre acompanhado por um técnico
qualificado e sempre à disposição
do doente e da família, igualmente por
telefone. Este tratamento em regime ambulatório
tem inúmeras vantagens, sendo a principal
o facto de o doente não ter que se ausentar
de casa, da família e poder continuar a
exercer a sua profissão. Visto muitos adictos
terem um ávida profissional muito activa
e terem recursos cognitivos bastante intactos,
importante apoiá-los enquanto ainda sentem
que conseguem controlar as suas vidas, as suas
famílias, os seus locais de trabalho. Muitos
conseguem “endireitar-se” sem terem
que se ausentar para tratamentos prolongados.
Manuel Sommer; Director do Instituto CAPA, na
Cruz-Quebrada/Dafundo
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