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artigos Manuel Sommer A Pessoa Dependente Química no Centro
   
  A abordagem da Pessoa dependente química nos sistemas de saúde tradicionais (hospitais, Unidades de Saúde, etc.) é no mínimo problemática.



A abordagem da Pessoa dependente química nos sistemas de saúde tradicionais (hospitais, Unidades de Saúde, etc.) é no mínimo problemática.

A visão biomédica dominante nessas instituições acerca do sofrimento psicológico e existencial não consegue dar respostas às reais necessidades do utente dependente químico. Nas palavras de Sanders (2009) a abordagem biomédica a) medicaliza o sofrimento, b) é reducionista e orientada ao sintoma e reproduz uma psicopatologia não evidenciada, c) o provedor de serviços é construído como sendo um profissional, um técnico, um expert, d) a pessoa tratada é construída como paciente, doente, enferma ou deficiente, e) o problema é construído como desequilíbrio, deficiência ou doença, f) há uma relação pouco clara entre o profissional e o recebedor de ajuda, relação esta que interfere na relação entre ambos . Ainda segundo este autor representa o triunfo da tecnologia sobre o desenvolvimento humano visto valorizar os resultados em detrimento dos processos, a objectividade em detrimento da subjectividade, a abstracção de factos em detrimento da descrição de experiências e valorizar as pessoas como objecto (people as objects) em detrimento das pessoas como pessoas (people as persons). A cada vez maior influência das neurociências sobre a psicoterapia levou a que recentemente alguns autores a até já introduzissem o termo “neuropsicoterapia” (p.ex. Grawe, 2006).

Este desenvolvimento é no mínimo problemático. Já Ivan Illich alertou em 1976 para o efeito detrimental da medicalização da vida e dos tratamentos médicos. Denominou este conceito a “Iatrogénese”. Hoje em dia temos a brutalidade do consumo de medicamentos, benzodiazepinas, anti-depressivos e barbitúricos como exemplo desta Iatrogénese. Impede as pessoas desenvolverem-se no âmbito do seu sofrimento, impede as pessoas conhecerem-se a elas próprias com o seu sofrimento, impede as pessoas aprenderem a darem um significado pessoal ao seu sofrimento. C. Rogers já desenvolveu a partir de 1940 “novos conceitos” (Rogers, 1940, 1942) nos quais desenvolveu o conceito da “tendência actualizante”, a “não-directividade”, o “holismo” e a importância da relação entre terapeuta e cliente, esta caracterizada por aceitação, compreensão e genuidade.

Fundamentalmente o conceito da “tendência actualizante” tem a ver com a capacidade de desenvolvimento do cliente, realça o potencial de desenvolvimento que está dentro de cada pessoa, em especial quando se observa sofrimento. Este potencial, que se encontra bloqueado, é “libertado” na relação terapêutica. É o cliente que liberta este potencial à medida que se vai auto-descobrindo na relação terapêutica. Este auto-conhecimento é possível devido à não-directividade do terapeuta, isto é devido ao profundo respeito que o terapeuta tem da individualidade do cliente e à não interferência num processo que o cliente iniciou. O toxicodependente que vem pedir ajuda psicoterapêutica e que iniciou o seu tratamento e quer parar os seus consumos, sabe que tem que parar e lidar com as causas mais profundas que o/a levaram tantos anos a consumir.

Um tratamento directivo e/ou medicamentoso e no qual o locus de controle é externo, nas mãos de um técnico ou de substâncias químicas (exemplo opiáceos de substituição, antagonistas, etc.) não desenvolve capacidades e competências para ir ao encontro dentro dele/a das causas que o/a levam a um consumo recorrente. Contínua a “externalizar” o seu tratamento. O “holismo” do ser humano é para esta reflexão de central importância. Sabe-se e sente-se que o modelo médico do sofrimento humano é reducionista no sentido de focar no sintoma em vez de focar na experiência do crescimento e desenvolvimento humano. O cliente é o “expert” do seu próprio sofrimento, precisa é de alguém que o ajuda a ele/ela auto-redireccionar o seu sofrimento para outras vivências.

Para isto poder acontecer uma verdadeira relação, na qual o cliente dependente químico esteja no Centro da relação terapêutica, revela-se útil e recomenda-se. O cliente, o seu sofrimento e vontade de desenvolvimento e de se tornar “Pessoa” tem que estar no Centro, não uma qualquer substância química legalmente prescrita, ou outra “tecnologia” de intervenção.

Doutor Manuel Sommer; Clínica CAPA
Maio de 2009

Ref. Bibliográficas: Sanders, P.: “Person-Centered Challenges do traditional psychological Healthcar Systems”, PCEP, Vol.8, Spring 2009, p. 1-17
Grawe,K (2006). Neuropsychotherapy: how the neurosciences inform effective psychotherapy. Hove, UK, Routledge
Illich,I. (1976). Medical nemesis:the expropriation of health. New York: Pantheon Books



 
 

 

 

 

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A Pessoa Dependente Química no Centro

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